Thursday, December 22, 2005

Ainda tem

Oi Blog. Acordei meio fora do prato hoje. E sempre que isso acontece, sabe-se lá porque, uma nuvem de preocupação pesa na minha cabeça. Me lembrei do garotinho no sinal, debaixo de chuva e com a boca inchada por causa de uma inflamação nos dentes. Pensei na Carol que voltou para o hospital. Pensei até nos bois da Clélia. E me lembrei também no apetite das pessoas no final do ano, na felicidade fingida, na excitação turbulenta, nas bebedeiras, nas comilanças, na dor de barriga consequente.

Mas sabe o que aconteceu? Recebi um cartão de natal. Eu sei que é a coisa mais fora de moda do mundo. Ninguém mais manda cartões de natal, a não ser os insuportáveis cartões virtuais. Só que esse é especial. É do Seu Henrique. Um amigo que conheci em fugazes minutos de nervosismo e pressa. Desci do carro e abri a porta correndo. Chovia. E lá vem o Seu Henrique que arranca a porta do taxi. Batida chata, em hora errada. Já armado de "desculpa e eu pago, não se preocupe", esperei a ira justificada.

- O senhor se machucou? Puxa, me desculpe, não vi que o Senhor estava abrindo a porta.
- Desculpe eu. A culpa foi toda minha. Não tinha nada que abrir essa porta sem olhar para trás.
- Mas o Senhor não se machucou mesmo?
- Não, não. Olha, por favor, eu estou muito atrasado para o meu vôo. Tome meu cartão, me ligue que eu pago o conserto.
- Está bem sim Senhor. Ligo sim.

E foi assim que conheci Seu Henrique. Paguei o conserto do carro do patrão dele. Nada mais justo mas ele regateou o Rio de Janeiro inteiro para me oferecer um orçamento mais barato. Agradeceu a minha gentileza. "Minha" gentileza? Que gentileza, Seu Henrique?

Meses depois, recebo um cartão de Natal do Seu Henrique me desejando feliz natal.

Viu só Blog? Queria que você conhecesse o Seu Henrique. Eu também queria conhecê-lo melhor mas não vou. Ele mora longe, tem família grande, ontra condição sabe? Mas é meu amigo, assim mesmo.

Seu Henrique é meu amigo.

Monday, December 12, 2005

Da Clarice (7 anos) pra avó (minha mãe de 80)

VÓVÓ, você me ensinou a sorrir
e não sofrer

me ensinou a ser feliz
e não chorar,
me ensinou a viver
e não morrer!

Mas não. Sem você
eu sofro, choro e até
morro

mas você não me
ensinou viver sem
você.

Friday, December 02, 2005

Socorro!

Blog, por gavor me ajude! A Pixel quer comer a Zefinha!

Guerra alviverde

Para mim

Batalhão a postos. De um lado, o exército de duas cabeças; do outro, a tropa dos desmiolados. No meio, o grande oceano dourado. E acima, no céu, o poderoso ogro, o grande artíficie da guerra.

O general bicéfalo, com seu capacete ornamentado de penachos, passa em revista seu exército. Na primeira linha de combate, os mais tolos: os amassados. Na seqüência, os mais fracos: os quebrados. E atrás, fechando a linha de ataque, a elite, a nobreza de sangue verde. Era um exército regular, disciplinado e que respeitava as convenções internacionais.

Do outro lado do mar, era uma bagunça. Os despossuídos amontoavam-se sem ordem, sem critério, uns em cima dos outros. Eram uma massa caótica, a perder de vista, esbranquiçando o horizonte. No centro da formação, o chefe bárbaro agitava seus oito braços e doze pernas. O objetivo era capturar o inimigo e distribuir suas cabeças pelos oprimidos. Uma cruzada pelo fim dos privilégios.

O general comandou o primeiro ataque. Jangadas foram jogadas nas ondas, lotadas de soldados. Do outro lado, ouviu-se um imenso clamor que se seguiu de uma onda branca que se jogou nas dobras do mar. A travessia era ordenada de um lado, maciça do outro. Enfim, encontraram-se e o choque foi brutal. Muitos soldados foram dizimados, transformados em purê, sem dó nem piedade pelo rolo compressor branco, que por sua vez sofreu baixas consideráveis. O mar estava coalhado de cadáveres amputados, triturados.

Uma primeira retirada foi ordenada de ambos os lados. Valorosos grãos arrastaram um parco butim verde para o território além-peixe. O general Von Pois vociferava furioso com a desordem de seus comandados, apavorados com a maré branca.

Mas o deus da guerra estava com fome de um confronto definitivo e sangrento. Com sua espada de prata, abriu o oceano no meio, lacerando-lhe um corte profundo, de lado a lado. Brandiu, então, seu quadridente para o alto e sentenciou: “Salve-se quem puder. Atacar!”

O solo tremeu quando os dois exércitos se encontraram frente a frente. E o Deus não acudiu. Ao contrário, participou da briga, esfomeado. Com voracidade, ele arremessava montanhas de soldados na sua boca insaciável. No meio da batalha, brancos e verdes, desconcertados, não entendiam mais nada até o momento em que se encontravam, estropiados, no estômago do ogro.

Era o almoço de quarta-feira, dia de ervilha, cabeça de soldado; arroz branco, braços e pernas; peixe frito, oceano empanado.

Gozação

Dessa vez, foi demais. Passou dos limites. Foi um exagero. Contei novamente: um, dois, três, vinte e um, vinte e dois, vinte e três. Vinte e três cogumelos nasceram no meu jardim. Ontem foram dezoito e anteontem quatorze.

Fui pegar a faca, mais uma vez. Tinha chovido de manhã, a grama estava molhada. E espalhados pelos quatro cantos de meu mínusculo quintal, desavergonhados cogumelos, vintre e três molengosos prepúcios marrons.

Capei um, dois, três, vinte um, vinte e dois e quando cheguei ao vigésimo terceiro, com mais raiva ainda, segurei meu sabre com as duas mãos e parti aquela cabecinha pelancuda em um único golpe certeiro.

E nesse exato instante, enquanto a lâmina partia o vigésimo terceiro gogumelo no meio, um grito abafado, quase humano, seguido de um lamento de dor ressoou no jardim.

Saíra da terra, não havia dúvidas. Fiquei olhando para todos os lados aqueles falos decepados, tentando entender o que acontecera. Mas não havia explicação.

Um longo suspiro ainda ocupava o espaço. Deitei-me e encostei o ouvido no chão, próximo ao último cogumelo castrado. O som amplificou-se.

No dia seguinte, trinta e dois cogumelos cobriam meu jardim. Por essa eu já esperava mas não contive meu impulso e novamente atacado de furror, ceifei-os selvagemente. Dessa vez não foi um mas vários gritos sofridos que se elevaram da terra.

Corri para a garagem, peguei uma enxada e comecei a cavar, arrancando o caule do último descabeçado. Mas não encontrei nada que pudesse me revelar a origem daquele som.

Mais um dia passou-se, mais uma noite, mais uma carnificina na manhã seguinte de quarenta e oito intrusos cogumelos. Parecia gozação. Cavoquei freneticamente e mais e mais gritos, dessa vez ensurdecerores. Apliquei me ainda a descobrir o que estava acontecendo revolvendo toda a terra do jardim, sem sucesso.

No sábado, espreguiçei-me longamente na cama. Ao meio dia, levantei ainda sonolento. Não olhei para o lado quando passei pelo jardim. Quantos seriam hoje? Quarenta? Quarenta e cinco?

Tomei café fazendo cálculos probabílisticos, tentando encontrar alguma fórmula progressiva da procriação de cogumelos. Vesti-me retardando ao máximo a hora de encontrar meu jardin completamente destruído e com aqueles horripilantes pitocos a desafiar-me.

Mas não dava mais para retardar o suplício.

Caminhei lentamente para fora. Abri os olhos no terraço, já conformado com aquela cena que atormentava minha vida havia uma semana. Dezenas e dezenas de cogumelos violentavam o meu jardim completamente destruído.

Foi então que desisti e vendi a casa para um cogumelista japonês surdo.

Gostar por quê?

Flávio não gostava de Marcos. Os motivos eram difusos e, por mais que tentasse escarafunchar a memória, não encontrava a razão de tanta antipatia. Mas era preciso eleger uma gênese qualquer para aquele desconforto, aquela náusea e as caretas involuntárias que fazia, quando cruzava com Marcos.

Marcos não gostava de Flávio. Não gostava e pronto. Por isso ele simplesmente tentava ignorá-lo, mas, cada vez que eles se encontravam na saída da escola ou no recreio, ele evitava o olhar sério, desconfiado e acanhado do outro.

Era assim também entre Silvio e João, André e Fernando. Entre Luciana e Marília, Rosane e Maria, também. Pessoas não se gostavam na escola. Pessoas não se gostavam e não sabiam por quê.

Mas poderia haver motivos de sobra para tudo isso. Flávio não gostava de Marcos, porque ele era perna-de-pau. Marcos não gostava de Flávio, por este ser fominha. É claro que não podiam se dar bem. Nada mais lógico. Isto é, mais ou menos, porque Flávio nunca jogou bola com Marcos, e este nunca assistiu a um jogo do outro.

No caso de Sílvio e João, era porque o primeiro era meio sujo e o segundo, fresco. Mas a sujeira de Sílvio e a frescura de João eram sempre muito disfarçadas debaixo dos uniformes. Já, entre Flávio e Marcos o problema era que um era pobre e o outro, rico. Mas o uniforme também escondia essa diferença.

Luciana e Marília, por sua vez, não se gostavam, porque Luciana era fofoqueira e Marília, tímida. Só que elas não estavam na mesma classe. Aliás, nem Rosane, que era vaidosa, e Maria esculachada. A bem da verdade, mal se conheciam.

Motivos havia para tanto desgosto. Motivos hipotéticos, claro, porque ninguém queria saber dos reais. Eles só não se gostavam.

No entanto, Marcos gostava de Sílvio, que gostava de Flávio. Flávio, por sua vez, gostava de João, que gostava de Marcos. Luciana gostava de Rosane, que gostava de Marília. Rosane gostava de Marília, que gostava de Maria. Marcos também gostava de Rosane; e Luciana, de Sílvio. Maria, de Fábio; Sílvio, de Rosane; João, de Marília.

Assim, apesar de haver motivos hipotéticos para uns não gostarem de outros e, ainda que alguns se preocupassem em acreditar neles, havia gente que se gostava na escola, sabendo ou não por quê.

Quem gostava gostava, e quem não gostava não gostava. Se bem que, `as vezes, quem não gostava passava a gostar, ou ficava mesmo sem gostar, ou gostava para sempre.

Afinal de contas, tinha tanta gente para gostar e desgostar que simplesmente não dava para gostar ou desgostar de todo mundo. Para que achar explicação para não gostar? Para que achar explicação para gostar?

Golden Gate

Um passo atrás do outro, largo, duro, de frio.

O vento glacial varre a rua, as árvores magras, a estrutura impermeável da cidade. Ao fundo, as torres esguias se aproximam passo a passo. De trás, ele arrasta.

O vento arranha, rasga cinzas membranas, rastela de raios o rosto da cidade. Passo a passo, pautas verticais confundem-se no ar varrido.

O vento sibila, suspira, cisma em notas sísmicas. Um pé empurra o outro, decididos, ritmando as agudas dissonâncias. Vibram as cordas suspensas.

E quando os passos se enfurnam no braço que se estende sobre o mar, cantam as cordas duplas da ponte. A harpa vibra e pinta a baía de douro vento.

Giramundo

Agora é de manhã em Bagdá. Hora de tomar chá à sombra da tamareira, balançar os pés no muro de arrimo e assoviar para as meninas que germinam de vergonha suas risadinhas.

- Gira, gira o mundo, César.

É de tarde no Arizona, calor danado na fedentina do curral. A garganta seca e arfa de poeira. Hora de água gelada da bica, à sombra do chapéu de feltro. Hora de balançar-se na porteira e cantar para as colegiais que entumecem de suor o tergal das camisas.

- Gira mais, mais rápido, Cesinha.

Noite, breu na Patagônia imóvel. O frio arrebenta os veios da mata, infiltra-se na pele da terra. É tempo de vinho quente agasalhado no poncho. Hora de soltar as cantigas, inflar as bochechas, chacoalhar os ombros. E aquecer o coração das cabrochas.

- Mais uma volta, uma não, várias, César!

Na praia deserta, lá no cafundó, o sal queima a língua. O sol cruel desbarata o tino, o bafo é quente nas ventas. Está quase na hora de correr para casa, tomar um banho e sair na brisa da varanda, acostar-se e sorrir para a filha da Sinhazinha.

- Mais, César, gira mais esse globo, César.

No mundo todo, em qualquer naco que se escolha, para qualquer teco que se aponte, toda hora, todo tempo, é assim que a gente faz: o que a natureza dita e o coração manda.

Girafas e macacos

Para Charles e Jean-Baptiste

- Por que a girafa tem um pescoço comprido?
- Porque assim ela pode comer as folhas das árvores.
- Mas o macaco também pode comer as folhas das árvores e não tem pescoço tão grande.
- É verdade, mas os macacos sobem nas árvores com suas patas, eles são diferentes.
- Mas, então, por que é que as girafas não têm patas para subir nas árvores?
- Porque elas têm pescoço comprido e não precisam sair do chão.
- Mas por que é, então, que os macacos são diferentes das girafas?
- Deve ser porque eles não vivem no mesmo lugar das girafas.
- E lá onde vivem os macacos, então, não tem girafas?
- Não.
- Mas por que as girafas não vivem no mesmo lugar dos macacos?
- Porque os macacos vivem nas florestas cheias de árvores, e as girafas, nas savanas com poucas árvores.
- Então, por que é que os macacos foram para as florestas, e as girafas para as savanas?
- Os macacos queriam comer mais e provavelmente não encontravam alimento nas savanas.
- Quer dizer, então, que eles saíram do mesmo lugar?
- Talvez.
- Então, talvez as girafas são macacos de pescoço comprido e sem patas, para subir nas árvores?
- Pode ser. E os macacos são girafas com patas, para subir nas árvores e de pescoço pequeno.
- Isso quer dizer que girafas e macacos são a mesma coisa?
- Na essência, sim.
- E nós? Também somos girafas, então?
- De certa forma, sim.
- E macacos?
- Também.
- A Patrícia parece mesmo uma girafa.
- E o Flavinho também é quase um macaco.
- Mas por que é que a Patrícia não come as árvores, nem o Flavinho?
- Porque apesar deles serem quase girafas ou macacos, eles não têm pescoços compridos o suficiente, e patas fortes o bastante para isso.
- Mas, então, um dia, o pescoço da Patrícia pode crescer se ela não encontrar mais nada para comer, e as patas do Flavinho podem ficar mais fortes se ele estiver com muita fome?
- Será?
- Será?
- Acho que não, porque eles comem carne moída e salada e peixe e banana e leitinho e nunca vão precisar comer folhas.
- Mas, se, por acaso, acontecer de não terem isso para comer?
- Daí, eu acho que eles vão morrer de fome.
- Então, seus pescoços e patas não vão mudar nunca?
- Não sei.
- Então, se um dia acontecer de não ter mais comida para eles, eles não podem se lembrar que eles são, no fundo, como as girafas e os macacos?
- Podem sim.
- Nesse caso, se eles lembrarem disso, eles não vão morrer?
- Não.
- Então, quer dizer que a gente tem sempre que se lembrar que a gente é como as girafas e os macacos?
- Pode ser.
- Entendi.
- O que você entendeu?
- Entendi que temos que nos lembrar de tudo, porque pode acontecer que a gente, um dia, pode não ter mais nem carne moída, nem leite, nem nada e vamos precisar dos nossos pescoços de girafa e patas de macacos para comer.
- Mas isso não vai acontecer.
- Não?
- Não.
- Que bom.
- O que é bom?
- Que isso não vai acontecer, mas mesmo assim.
- Mesmo assim o quê?
- Mesmo assim eu vou contar para a Patrícia que ela é uma girafa e para o Flavinho que ele é um macaco. Nunca se pode esquecer porque nunca se sabe.

Ghost tale

Para César

A noite era escura e fria. No parque em desalinho, um vento tenebroso arrepiava os cedros. As corujas centenárias tricotavam às pressas longos cachecóis para agasalhar suas proles. O céu, marejado de flocos de neve, sibiliava no telhado desdentado do grande castelo. Uma grade esquecida rangia.

Ao pé de uma lareira monumental, Sir John contava a misteriosa história do fantasma do duque de Wicherstershire, que havia aprisionado em seu calabouço de teias de aranha a bela Margie, filha do ferreiro da aldeia.

Era uma lenda muito famosa no condado e, embora todos já conhecessem muito bem as crueldades sádicas do duque, o desígnio trágico de Margie ainda causava grande comoção entre os habitantes da região.

Sir John, no entanto, cravejado de gestos e caretas, tinha um modo particular de contar, o que dava um enlevo particularmente sombrio à história. No tão meloso trecho que antecede o trágico encerramento dos desígnios de Margie –em que ela chora aos pés do fantasma, por exemplo–, o velho rastejava sem pudores pelos tapetes, imitando a voz da menina.

Era perto das onze horas da noite, a história chegava a seu final, quando bateram à porta do castelo.

Sir John descansou o livro na grande bergère puída onde ele invariavelmente tronava para sua platéia e dirigiu-se à entrada, esfregando pesadamente suas pantufas felpudas pelo piso gelado da sala.

Quando a porta se abriu, no entanto, não havia viva alma, isto é, não havia vivo homem ou mulher. O velho arrepiou-se e, quando estava para se trancar novamente, uma voz suplicante fez-se ouvir. O ancião dirigiu o olhar para os lados. Não havia ninguém.

Sir John fechou a porta com violência, dispensou seu público, recolheu o livro e foi dormir. O final da história ficaria para o dia seguinte. A interrupção havia quebrado o ritmo da narrativa.

Aninhado no fundo da cama, o velho retirou sua dentadura, enfiou o boné de lã até o pescoço e fechou os olhos, tremendo de frio e pavor. Mas nada de conseguir pegar no sono. Ele estava intrigado com aquela sonora aparição.

Algumas horas depois, o pesado sino da entrada badalou algumas vezes. Sir John, que não dormia mesmo, desceu a escadaria principal do castelo, armou-se de uma enferrujada espingarda e gritou através da porta: “Who in the hell is there?” Nenhuma resposta a não ser um lamento longo que se mesclava aos sibilos enregelados da madrugada.

Era preciso abrir. Sir John era corajoso e não acreditava em fantasmas. Afinal de contas, ele era trineto do conde de Fulstersishire, grande general da Guerra dos Cem Anos, responsável, entre outros feitos heróicos, pela introdução do black pudding na dieta dos ingleses.

Ele abriu a porta. Um vento glacial percorreu em redomoinhos furiosos o grande salão. Sir John tremelicou como um pergaminho frágil: a lamúria continuava, aguda e triste, reverberando nas escuras abóbadas do castelo.

E lá estava, sentada no capacho monogramado da soleira, uma raposa ruiva molhada e descabelada que choramingava:

– What happened to that sweet child? What happened to Margie, Milord, I beg you?

Gertrude e Denise

O galinheiro estava bem movimentado naquela manhã. As tarefas tinham começado logo cedo. Lavagem do puleiro, faxina das camas de palha, odorização do ar, decoração florida. Até as conservas de minhocas do Monte Alpino, Grand Cru, 1843 saíram do esconderijo.

Era o dia da visita anual do arcebispo de Henshire.

No final da manhã, as penosas cantoras alinharam-se para um último ensaio do coro. A superiora em grande aparato regia com pompa a serenata de boas-vindas.

Quando foi finalmente anunciada a aproximação da comitiva, todas ocuparam seus postos previamente definidos: Gertrude na recepção, Denise no telhado.

O arcebispo era um jovem Galo da Pomerânia, colo dourado, penacho verde e cauda em mil fogos grenás. Com soberba reverência, ele adentrou o galinheiro, caminhou majestoso pelo pórtico. Gertrude pôs-se em sentinela diante dele, deitou uma asa no chão e eclipsou-se de ré para abrir-lhe a guarda.

O coro aguardava um sinal para iniciar as festividades, e a superiora palpitava as penungens do colo em desregrada ansiedade.

A seqüência dos acontecimentos foi desastrosa.

O arcebispo, impaciente novato, saciou seu fogoso apetite ali mesmo, cobriu Gertrude no capacho, Denise na cumieira, deu meia volta e foi-se cambaleando pela estrada.

A visita anual de Sua Reverência foi assim, sem coro, sem banquete, sem festejo, sem orgia. Só uma rapidinha com Gertrude e uma mais que breve com Denise.

Gêneros sem jeito

Não foi nada agradável trombarem daquela forma. Carlota e Jones viram-se frente a frente, no lodaçal, distantes um do outro pouco mais de um pulo, para o sapo, e um corpo, para a taturana.

Apesar da situação, Jones não perdeu a face nem a compostura e permaneceu impassível. A taturana, grande e venenosa, estampava no rosto um muxoxo de superioridade e, ao longo de seus gomos, pequenos espasmos de desafio arrepiavam-lhe os pêlos. Jones era muito macho e não arredou os pés.

Já Carlota, pacífica e indolente, não escondeu seu espanto e sequer conseguiu controlar os músculos dos maxilares que relaxaram cavernosamente. Tremendo convulsivamente sob a epiderme salivosa, o sapo arregalava os glóbulos de pavor. Ele era uma fêmea frágil e tímida.

Portanto, cá estavam ambos cara a cara: Carlota e Jones, a sapa singela e a taturana varonil.

De acordo com as aparências e papéis que a razão impõe, é inevitável a rotulagem metafórica: os sapos, como os caminhões, são morfológica e socialmente grosseiros, pesados e viris. Já as taturanas, tais quais as sandálias de salto, são femininas, graciosas e vaidosas. Mas ainda assim, a natureza, sexista, impõe diferenças quando menos operacionais, para não dizer de perpetuação. Assim, há fêmeas mesmo entre os sapos, e machos, até entre as taturanas.

E cá estavam Carlota e Jones.

Para resolver o impasse dos gêneros, as leis de sobrevivência, sábias na solução de quase todos os problemas, rezam por alguns catecismos evolutivos. Todos sabem que os sapos são carnívoros, enquanto as taturanas se nutrem de vegetais.

Mas pouco se importou Cartola com as metafísicas humanas, e conformou-se Jones com as injustiças alimentares da Criação.

No lodaçal, Carlota, o sapo fêmea deu um golpe lingual e sorveu Jones, a taturana macho.

Gary e Gupta

Eles iam num irresistível apelo ou reflexo, conformados. Uma viagem burocrática, corre-corre atrás dos cardumes de sardinha, pula-pula furando o horizonte, pega-pega em defesa da prole. À medida que chegavam, á água tépida do verão acolhia a grande família de golfinhos.

Pois muitos temiam as rotas sombrias que lhes cruzavam o espelho brilhante. Sinal de catástrofe, sinal de fome. Despistemos!

A tarefa alegrava Gary e Gupta. Eles desgarravam-se do grupo e, num teatro ruidoso, entretinham em outras direções os tolos pescadores.

- Ali, ali, siga os golfinhos! Estão à caça eles também!

E a dupla esperta guiava a embarcação longe dali, bem longe. Pois, quando as redes despencavam no mar, Gary e Gupta fundeavam fora da vista. Riam da manobra e retornavam para a festa admirados heróis.

Até que o tempo se sofisticou. Mais e mais navios de pesca pulularam naquelas paragens. Maiores e velozes. Incessantes e cansativas eram as solicitações para Gary e Gupta.

Mas um dia, depois de confundir por horas um baleeiro japonês, os valentes perderam-se na noite que despencara repentinamente. Vagaram assim por dias alertas mudos também. Nenhum sinal da tropa.

Rumo ao Sul. Lá para o Sul. E foi assim que se descobriram um ao outro. Sem ninguém mais para testemunhar-lhes a comunhão solitária. Foram vistos, um dia, em Grand Canária. Pareciam felizes.

Friday, November 25, 2005

Autismo, um sequestro mudo


Saúde Blog!

Hoje, depois de publicar o F das minhas histórias, uma ex-ficção.

Sabe o autismo? Não, hoje ninguém mais pode dizer que é uma doença. É um sintoma. Grave, gravíssimo.

E já está comprovado que se tornou uma epidemia: nos anos 80, contava-se 1 caso em cada 10 mil nascimentos. Hoje, é um caso em cada 166 nascimentos.

Não vou te falar o que é autismo. Nem precisa, não acha? Mas o que me interessa - e vou explicar com minhas palavras, sem ser científico - é que existe uma infame e criminosa campanha para desacreditar importantes observações que milhares de pais estão tornando públicas: há uma relação provável entre o índice de metais tóxicos no organismo (e a capacidade que temos de eliminá-los) e o autismo. Acontece que os esses metais e em particular o mercúrio é usado na fabricação de vacinas infantis. Os cientistas, os laboratórios e toda a espécie de instituições interessadas estão alarmados com as constatações: é provável que a presença de mercurio nas vacinas infantis esteja envenenando nossas crianças.

A reação é óbvia: desacreditam imediatamente a tese dos pais, lançando mão dos clássicos argumentos de quem se sente ameaçado: histórias episódicas, omissões, declarações da pseudo-inteligentsia científica. Toda sorte de argumentos que, de imediato, parecem convincentes.

Pois eu sei que no fundo, tudo não passa de um medo criminoso, um desespero mascarado de serviço público, uma arrogância assassina, uma arquitetura reacionária.

Eu sempre desconfio, sabe? Desconfio - por princípio - de todas as declarações desprovidas de emoção. Todo discurso racional e estatístico me deixa encafifado.

Só acredito na indignação que transpira da emoção vivida. O resto é retórica defensiva mascarada de ciência.

A matemática mente, o coração não. Vai por mim.

Função erétil

Eram quarenta corajosos varões. O destino estava traçado e, aconchegados uns contra os outros numa embaraçosa promiscuidade, eles aguardavam ansiosos. A qualquer momento eles seriam chamados para desligarem-se do grupo e, contando tão-somente com seus dotes físicos, entrariam em ação.

Eles haviam sido educados com disciplina e, graças ao extraordinário gênio de sua formação industrial, suas qualidades diferenciadoras haviam sido castradas. Um impressionante processo de padronização havia criado quarenta seres idênticos, com o mesmo tamanho, a mesma compleição e o mesmo talento. Um único talento primordial, viril: o coito seguido de fecundação.

Doutos cientistas haviam estudado por anos a fio o processo de simplificação genética das cracas machas. Aqueles seres primitivos haviam, ao longo de um processo de seleção exaustivo, atrofiado seus órgãos desnecessários, privilegiando tão-somente o membro masculino que se projetava em estado de priapismo perpétuo.

Usando como referência biológica esses extraordinários seres, os pesquisadores buscaram as condições ideais para reproduzir em laboratório indivíduos capazes de se igualar a eles em eficiência. Até mesmo da longíqua Terra do Meio, recursos raros e revolucionários foram incorporados à pesquisa, resultando em incrementos consideráveis de poder de ereção e fogo.

Cracas no entanto são sujas e com padrões de saúde inadequados. Em função da utilização freqüente do órgão reprodutor, elas são sensíveis a toda sorte de doenças venéreas, sem falar de uma grande tendência para desenvolver fimose. E nesse caso, sua eficiência é extremamente prejudicada. Por isso, médicos e cirurgiões procruraram uma solução adequada, e foi entre os hebreus que eles resolveram o problema, aprendendo com eles a técnica da circuncisão precoce.

Foi assim que, após um longo processo de estudos e experimentação, os quarenta varões nasceram. Quarenta valentões “pintus erectus” de primeira geração.

Mas algo deu errado na pesquisa e nos testes. Até hoje não se chegou a nenhuma conclusão sobre os motivos de tão desagradável problema. Acontece que os varões, embora bem-dotados, muito asseados, com energia sexual tântrica e alto poder de fogo, eram incapazes de ejacular mais de uma vez. Pior, eles viraravam inférteis depois da primeira e única cópula que eram capazes de executar.

Anualmente um colóquio internacional tenta esclarecer a embaraçosa questão: por que é que um fósforo só acende uma vez?

Fúlvio e o pinho

Todos estes anos, de manhã, de tarde, de noite, na chuva ou no sol, na felicidade ou na preguiça, ardendo de frebre ou dormindo como um justo, Fúlvio tem vivido.

Quando abria os olhos, sacudindo a poeira dos sonhos, lá estava o mundo nem sempre igual, nem sempre diferente, como antes e como seria depois. Ele também estava lá, um pouco mais vivo. Como seu guia lá fora, um pinheiro banal que ele plantara um dia. A rotina de olhar para o verde corajoso, pela janela dava a Fúlvio a necessária força para permanecer náufrago na vida.

Mas o que esse homem comum sentia antes de afogar-se na noite, antes de dormir, era uma certa náusea. Numa pausa de conformado desespero, turvava-se-lhe o futuro. Fúlvio debatia-se então e agarrava-se nas bóias do passado. E à medida que os anos passavam, elas se esfacelavam em mil pedaços esparsos.

O pinho crescia, passava já do telhado, com vivacidade renovada. Fúlvio desperto era um com ele, até quando seu vulto na janela se dissipava à noite.

Uma noite, Fúlvio sonhou com um mar poluído de objetos desinfetados pela maré. Tinha de tudo: baldaquins, sanitários, gargantilhas, marquises, escapulários, rostos, fígados e apêndices, pagodes despedaçados, pavimentos espelhados, praças aflitas e praias virgens, ciclopes mudos, marfins ocos, caudas de fogo, olhos marejados, suspiros eternos, meteoros cinselados, dores de prazer e muitos outros dejetos do passado.

Uma noite, na última noite, Fúlvio viu passar o pinho que fora um com ele.

Fulano, Beltrano, Sicrano e o tomate

Aqui finda a história ao contrário.

Por isso, ela começa pelo fim, quando Fulano morreu. Ele morreu porque escorregou num tomate e aconteceu de, naquele dia, Sicrano adormecer guiando sua caleche. O coração não suportou o susto. Fulano tinha ido para a feira e Sicrano voltava do baile em homenagem ao príncipe de Macau na casa do duque Beltrano.

Fulano ia para a feira a pé, atravessando a rua, andando pela calçada, descendo a escada. Sicrano sonhava com a bela que lhe prometera reencontros, com a mãe e também com as contas a pagar. Beltrano, por sua vez, bebia para esquecer a solidão do palácio deserto, a desfeita do príncipe, os fuxicos da traição da esposa.

Fulano não dormiu na noite que precedeu seu fim. Ele trabalhava na casa de Beltrano, que contava com sua inventividade culinária para impressionar os convidados em suas festas. Sicrano chegara cedo, para investigar os convivas, localizar sua presa, armar um plano de sedução com calma. Já Beltrano se esmerava, recitando com fingido improviso as polidas boas-vindas que endereçava aos seus nobres hóspedes.

Sicrano passara a tarde no cabeleireiro arrumando a peruca, Fulano orquestrava os preparativos, e Beltrano assinava os mimos preciosos que encomendara para agradar a sociedade.

Fulano foi empregado por Beltrano dois anos antes de sua última festa. O pai de Sicrano estava falido e dispensara Fulano com pesar. Beltrano era um ambicioso nobre rural, que acumulara uma fortuna na suas terras férteis. Sicrano desde jovem colecionava as conquistas amorosas, sem preconceitos nem foco. Fulano, graças a suas viagens com o príncipe de Macau, quando jovem aprendeu todas os temperos do Oriente, todas as iguarias, todos os segredos da alquimia gastronômica oriental.

Sicrano nasceu no castelo de sua mãe, enquanto seu pai se ocupava de fantasiosas embaixadas. Beltrano era filho único, esperança da linhagem, mas feio de doer. Fulano foi abandonado na porta de um convento, num cesto de feira.

Aqui começa essa história. A história do conto que escorregou no tomate.

Fome de voar

De tanto voar, de flor em flor, beliscando a chuva, no embaraço das nuvens, arf-arf, ele pousou cansado no topo do telhado. Muitos dias de calor e fome depois, o passarinho já tinha esquadrinhado todo o jardim e puxado a aventura até as fronteiras do asfalto, tintim por tintim. Nada de comida, a natureza murchara como numa invasão de gafanhotos gulosos, pilhada, humilhada, snif-snif, triste, muito triste.

Mas o estômago colado não deixava o passarinho apiedar-se da desolação que o cercava, e reclamava a barriga num ronronar eloqüente. Era preciso pensar, encontrar uma solução ou exilar-se e migrar como tolos patos e outros qüenqüéns. E foi como abrir uma grade que grita, neurônios grudados a desengruvinhar.

Após de muito matutar, o passarinho finalmente encontrou a saída e respirou aliviado, aleluia! O jeito era aproximar-se do viveiro, do xilindró, jogar um blá-blá-blá no cárcere e assuntar uma sobra, uma esmola. O passarinho foi, então, bater à porta dos veteranos condenados que nem cacarejaram com a chegada do esquálido tico-tico.

O passarinho sorriu, seduziu, contou piadas e até ensaiou um canto desafinado, mas os periquitos histéricos deram de ombros: nem um pio de compaixão. Ele tentou argumentar, prometeu, implorou até um longo chororô, mas nada, nadica de nada.

O passarinho, mordido de ódio, não se acovardou e alçou um vôo exibido com muitos frufrus e tititis.
E assim planando, o passarinho esqueceu o não-me-toque e o jardim de marré de-ci.
Assim bailando, o passarinho nem Tchum: mais vale voar do que um prato para ciscar.

Floresta assassinada

Soou volumoso, persistente, profundo, monódico. Uma única nota a ricochetear nas copas. O caçador anunciou assim o final da caçada.

Aos poucos o tropel de cavaleiros perfurou a floresta, manchando o plácido cenário de pinceladas rubras. Alguns cantavam, outros discutiam, um mar de cachorros se esparramava pelo campo e, mais atrás, uma horda de serviçais transportava o fabuloso butim. De carne feridas, sanguinolentas, doídas.

E quando descansou das febres bárbaras, um ponto silencioso, solene, fúnebre emudeceu a mata. Nem lamento de órfãos, nem descabelos, nem desesperos.

Assim, depois da carnificina ignorante, a morte suspende o tempo, o medo paralisa.

Quando a dor é enorme, gigantesca, do tamanho de uma floresta inteira, chorar é vão desperdício. Rezar, arrazoar e morrer, também.

Ou talvez cantar um infinito suspiro. Para continuar a viver, por falta de opção.

Flashback

Qual não foi a supresa de Mireille, quando ela chegou em casa aquela noite: uma bandeira roxa ocupava o meio da sala. O que poderia ser aquilo? Mireille ficou alguns minutos em pé, de frente para a instalação, sem entender nada e conjecturando sobre as diferentes hipóteses, tentando encontrar alguma coerente, em vão. Para fixar o mastro todo enfeitado por fitas coloridas, o vaso de dracena havia sido deslocado. A bandeira era de um tecido estranho, todo bordado mas roxo, só roxo. Mireille se aproximou e percebeu, então, um pequeno bilhete embaixo de um seixo de rio, delicadamente pousado na borda do vaso. Mais uma estranheza: uma mensagem. A garota desdobrou o papel e leu:

“Boa noite, Mireille. Você demorou hoje, não? Não faz mal. Estou esperando você no quarto. Até já, Mimi.”

Mimi! Mimi era seu apelido de criança, mas ninguém mais a chamava assim. O que fazer agora? O que significava aquilo? Sair correndo, chamar o Heraldo, o vizinho lutador de boxe, a polícia? Não adiantava nada: tinha alguém em casa e era necessário enfrentar.

Silenciosamente, Mireille dirigiu-se ao quarto, respirando com dificuldade e controlando o nervoso. Caminhando pelo corredor, ela percebeu umas pequenas gotas amarelas derramadas com certa simetria ao longo do assoalho. Quando chegou no meio do trajeto, uma mancha maior, feita com o mesmo líquido, formava uma serpentina. Como se alguém tivesse espalhado o líquido no chão e brincado com o dedo formando o desenho. Numa das pontas, uma seta indicava o final do corredor e, dali em diante, as gotas se interrompiam.

O coração de Mireille batia fortemente no seu peito. Ela continuou a caminhar e entrou no banheiro, um instante, para pensar melhor antes de encarar o intruso. Pequenos frascos de vidro ocupavam a grande bancada de mármore da pia. A garota quase gritou, tamanha foi a surpresa. Que bagunça era aquela? Luzia, a empregada de tantos anos, sabia que Mireille era metódica e organizada. Como deixara tudo daquele jeito? Mas observando com mais cuidado, Mireille percebeu que não eram seus. Aqueles pequenos vidros eram estranhos. De diferentes formas, continham pequenas contas de vários tamanhos, alguns cheios, outros quase vazios. Numa das prateleiras incrivelmente desordenadas, também tinha outro bilhete, que dizia:

“Mimi, me ajuda, por favor. Não perca tanto tempo. Vem logo.”

Mireille estremeceu novamente, respirou fundo, abriu a porta do banheiro armada de um spray de gel para a barba que Fábio, seu antigo namorado, havia esquecido, e caminhou rapidamente para o quarto, sem se preocupar
com mais nada.

Com o coração na boca e os músculos tesos, ela abriu a porta do quarto. E lá estava. Lá estava ele. Deitado na cama, ligeiramente elevado pelos quatro travesseiros de Mireille, um balofo urso de pelúcia esperava, bebendo suco de laranja e enfiando pérolas coloridas em um cordão que dava várias voltas em seu pescoço.

Quando Mireille entou no quarto, ele levantou a cabeça, sorriu e disse:

“Mimi, me ajuda a voltar? Quero voltar pro Butão.”

Foi assim que Mireille, aliás Mimi, viajou para além da Conchinchina, para os confins do Himalaia, levar Butô, seu urso de pelúcia, para casa.

Filomena despertou abusada

Um raio de sol escorregou pela testa e furou as pálpebras.

- Jacinto! Jacinto!

Jacinto arranhou a porta e entrou precedido de uma servil reverência.

- Pois não, madame.

A loira estava recostada em suas almofadas de pena, com a maquilagem mal-lavada escorrendo pelas bochechas, e os cachos em desalinho. “Terremoto escala seis no Museu de Cera”, pensou Jacinto.

- Meu espelho, meu espelho!

De lá, Filomena agitava seus braços bufantes e de cá, os pés gordinhos jaziam como bebês saciados na coberta de cashemere. “Que mania de repetir duas vezes as ordens. Gaga ela, e surdo eu”, incomodou-se o mordomo.

- Que horas são? Tenho compromissos?

A condessa constatava o desastre da ressaca. Ajeitava uma ruga aqui, esticava uma madeixa lá. “Quando o prato está uma pia, não adianta colocar açúcar depois”, filosofou o empregado, enquanto abria silenciosamente as pesadas cortinas do boudoir de madame.

- Sim, madame. O coiffeur já chegou, a esteticista e seu instrutor de ginástica rítmica, também. O banho está pronto. Tafetá ou mousseline hoje, condessa?

Filomena empoleirou-se nas plumas. Como ela gostava desse momento mágico! Era a coroação de sua indispensável importância no universo. “Pode vir, pode vir, me bate, me humilha, me chama de capacho, pulga, verme, salmonela perniciosa”.

- Minhas panóplias de esgrima e equitação, já Jacinto. Já, eu disse, Jacinto.

O séquito rumou para o parque do castelo, para acompanhar as performances esportivas da dama. Até o cabeleireiro tagarela, o esteticista andrógeno, a ginasta romena aposentada. “Vai chover.”

- Meu penteado!

As alamedas eram uma paleta ocre e sépia e como se tentassem uma última súplica, os carvalhos fremiam seus galhos nus no céu grávido. “Muita escolha mata a escolha”, lamentou Jacinto, a caminho da herborização na estufa de bromélias.

Filó do céu

Quando jovem, Filó passava noites inteiras escarafunchando o céu, e isso desde o dia em que ganhou sua primeira luneta. O mesmo ritual se repetia desde os doze anos de idade. Hoje, ele trabalha no Observatório Nacional da Ucrânia e fez do seu maior prazer uma profissão. É um grande especialista. Ele nunca estudou astronomia, nem física, nem coisa alguma. Fala pouco também, somente o essencial para continuar vivendo e deschaveando o céu. Todos o respeitam muito, por sua dedicação e incomparável capacidade de permanecer horas a fio com o olho vidrado no céu. Ninguém sabe ao certo sua idade, mas supõe-se que ele seja bastante idoso. Os anos, porém, não prejudicaram em nada sua tenacidade. O que se sabe de sua biografia é apenas que ele nasceu numa pequena vila de pescadores chamada Tamandaré, no Nordeste do Brasil e que, ainda jovem, embarcou num navio de carga que o fez aportar na Europa meses depois. Como foi parar na Ucrânia é um mistério mas ele rapidamente passou a ocupar o posto de observador-adjunto do Instituto de Astronomia.

A única função de Filó era de olhar, olhar, olhar e, quando chegava o fim de seu turno, limpava o telescópio e varria o observatório. Só isso. Ninguém discutia muito sua utilidade. Era assim fazia tantos anos que seu posto não precisava mais de justificativa alguma: Filó era olheiro e faxineiro.

Mas o que Filó tanto olhava no céu? As estrelas, é claro. Sim, as estrelas, mas para por que, para quê? Quando indagado sobre essas questões, ele invariavelmente respondia “Para elas não se sentirem sós e se apagarem de tristeza”. Filó não era poeta, não se enganem. Ele ouvira isso uma vez no corredor do observatório e achara que a frase era suficiente para justificar sua presença, seu ofício, sua vida.

Duas vezes apenas, na longa carreira de Filó, sua contribuição profissional fora notada. A primeira quando percebera no céu uma perturbação que provocara grandes tumultos no mundo científico. Todos entraram em alvoroço, porque Filó descobrira uma provável nova constelação “Ali, ali, ali em cima”, como dizia o faxineiro.

A segunda contribuição se deu no mesmo dia, pouco depois da primeira, quando ele encontrou uma aranha xereta que tecera um ninho na pontinha do telescópio, “Ali, ali, ali em cima”.

Um dia, Filó se aposentou. Ele se retirou do mundo científico e nunca mais freqüentou o observatório. Nunca mais também olhou para o céu, por causa de seu reumatismo que o impedia de levantar o pescoço.

Ele voltou para Tamandaré, sua aldeia natal, e passava os dias remendando redes de pesca. Ninguém era melhor do que ele nisso, e os pescadores locais ficaram felizes.

Nunca mais deixaram escapar peixe algum, por menor que fosse; um camarão sequer, mesmo o mais rastejante; nem a mais escorregadia das lulas.

Nunca mais deixaram escapar a mais solitária e triste das estrelas do mar.

Figueira

Para Marcos

Era um lugar muito escuro e úmido.

Quando nasci, foi aqui que caí, talvez por acaso ou sorte. Dotado de inconsciência mágica, agarrei-me àquele húmus, àquela lama fria. Com todos os reflexos, fiz um voto de permanência e dependência: “Cá fincarei meu destino”.

A floresta me acolheu com resignação e orei por ela com fé.

Eu cresci aqui, entre a rocha pré-histórica e o rio.

Ainda jovem figueira, na mobilidade obscura do destino das árvores, agarrei-me ao cascalho que rolava da montanha, comi da terra, respirei do ar e pacientemente espreguicei-me para cima e para baixo.

A floresta era um fluxo-refluxo, e com ela dialoguei.

Aqui estou, entre a rocha pré-histórica e o rio.

Escuta aqui, os espíritos da floresta.

Feijões, lingüiças e o resto

Era um prato de feijão branco com algumas pelancas afogadas.

Boiando na travessa, feijões, lingüiças, nacos de penosa e uma folha de louro atropelavam-se acaloradamente. Mas, para quem via de cima, por entre os odores aromáticos, o ambiente era harmônico.

De volta ao prato, o mais gordo dos grãos, elevou a voz e, colocando todo o bafo para fora, gritou um canto marcial. Alguns ingênuos feijões acompanhavam em coro. E, quando ele finalmente resfolegou, não faltaram vaias e risadas. Quem liderava a pilhéria era uma rodela vermelha de lingüiça. O velho general feculante ainda se agitava de indignação, mas a massa ingrata deu de ombros para suas medalhas e mofadas conquistas. A lingüiça era uma palhaça. Sua pantomima era hilária e, apesar de por vezes vulgar, o plenário inteiro gargalhava.

Jacquin, o guarda-florestal da província, sua esposa, Marceline, e duas bufas crianças sentaram-se à mesa. “Deus é bom, Deus é grande. Agradecemos, Senhor, pelo pão, pela paz - e avistando a travessa fumegante – pela paz e por essa maravilha aí.”

Aqui em baixo, os humores amainaram-se rapidamente. As penosas arrepiaram-se, os feijões rebolaram e até as irresponsáveis lingüiças soltaram gritos de pavor. “Maravilha”, ele havia dito “maravilha”! E mais uma vez, sem ser convidado, foi o veterano militar que tomou a palavra: “Meu povo, minha gente, maravilha é o nome. É disso que ele nos chamou. “Feijões, lingüiças e penosas, uni-vos e que o Todo-Poderoso nos guie” e numa bravata vingativa, acrescentou: “Palhaçada não põe mesa, uni-vos!”. Boas de palanque, as linguiças teorizavam ironias maliciosas. Bom de pelanca, o general distribuía ordens e autoridade.

Mas os partidos rapidamente se dissiparam, porque a família já engolia um “amém” protocolar. Marceline levantou-se e, com sua voz de falsete anunciou, o início dos trabalhos.

Foi guloso o ataque. Jacquin comeu três pratos, Marceline, um e os fedelhos obesos até lamberam os pratos. Foi passiva a defesa. O general morreu heroicamente na garganta do guarda- florestal, as penosas suicidaram-se e as lingüiças discursaram, mas foram devoradas sem piedade.

Após o almoço, enquanto a família resfastelava-se preguiçosamente na varanda, lá na mesa, na travessa deserta, a folha de louro, bardo venerando, cantarolava, com sua lira, a inoperância das políticas do cassoulet.

Fedeu

Para Edu

Primeiro foi uma ventania, forte. Os sopros vinham pela direita, pela esquerda, de cima para baixo, de baixo para cima. Um céu asmático castigava o jardim. As árvores em transe bailavam em cima do telhado. Depois veio a chuva, suicidando as nuvens lá no alto. Pingos apressados rebolavam nas folhas mais altas e despencavam caóticos no gramado. E quando tudo estava molhado e bagunçado, um enorme estrondo rasgou o espaço.

Corri para o terraço e lá estava: no meio da noite escura, de ponta a ponta, uma fenda arreganhava as tripas do céu.

Logo a chuva parou de cair e o vento sossegou. De frente para mim, do rasgão que se extendia até onde a vista alcança, uma luz amarelada transpirava para fora. Um cheiro acre enchia a atmosfera.

No início eu não enxerguei direito. Só percebia formas se movimentando através da fresta. Mas aos poucos minha vista se firmou e consegui distinguir o interior do buraco. Eram tubos sanfonados de todos os calibres que se entrelaçavam sem ordem. Os maiores pulsavam como um aspirador em grande atividade.

Eu estava um pouco assustado, mas respirei fundo e caminhei em direção à abertura que tocava o chão. À medida que me aproximava, o rumor abafado que ouvia transformou-se em uma pequena voz borbulhante. Era impossível ainda distinguir se era humana. Cheguei mais perto e encostei o ouvido numa das mangueiras. Tinha uma pessoa lá dentro.

- Hey, quem está aí?
- Vai buscar a fita isolante, rápido!
- Como assim?
- A fita isolante, esta vazando, corre!

Me afastei um pouco e percebi que de fato, um caldo viscoso escorria ao longo da tubulação.

- Quem é você?
- Não é hora para fazer perguntas, maluco, vá buscar o que pedi!

Não discuti muito e apesar de achar a idéia estranha, corri para a garagem apanhar meu kit de encanador. Voltei ofegante e comecei rapidamente a envolver o tubo com a fita.

- Isso, bom trabalho.
- Obrigado.
- Você quem é? O que está fazendo aí?
- Ué, estou na minha casa. Mas eu é que pergunto! Quem é você?
- Espera um pouco.

Eu não havia percebido uma pequena escotilha parafusada em uma das saliências. Ela se abriu para dentro. Um olho azul apareceu por detrás, e a portinha se fechou rapidamente.

- Alô? Você ainda está aí?
- Estou sim, mas quem é você? Que lugar é esse?
- Eu sou o Marcos, aqui é a minha casa.
- Sua casa? Como assim sua casa?
- Minha casa, ora. Moro aqui.
- Mas espera um pouco. O que está acontecendo aqui?
- E eu sei? Esse rasgão abriu-se no céu e pronto.
- Rasgão? Que rasgão? Rasgão no céu, Meu Deus!
- Chamou?

De susto, cai de bunda no chão e fiquei ouvindo o diálogo que se seguiu.

- Meu Deus, acho que temos problemas com a película isolante da camada terráquea.
- Interessante.
- Um vivo flagrou o incidente, Senhor.
- É?
- Sim, e agora o que fazemos?
- Sei lá, decide você. Eu estou com preguiça e não me chame mais no meio do jantar. Adeus, digo, Amim.

Nesse momento, a escotilha abriu-se novamente.

- Vivo, você sabe o que aconteceu aqui?
- Não faço a menor idéia.
- Quer saber?
- Quero.
- Mas promete uma coisa.
- Pode falar.
- Você não conta para ninguém.
- Tá bom, o que foi?
- Hoje era dia de festa aqui.
- Aqui aonde?
- Aqui no céu, caramba, mas você é burro mesmo. Não percebeu que eu estou no céu?
- Quer dizer, percebi sim.
- Não entendeu que eu morri?
- Morreu?
- Bom, deixa para lá.
- Mas o que aconteceu?
- Pois então. Esse buraco no céu é inédito, não me lembro que tenha acontecido antes.
- Mas e agora?
- Agora nada, vamos dar um jeito nisso, não se preocupe, não vai ser fácil mas já já a gente conserta.
- Tá bom. Quer ajuda?
- Não obrigado. Você já fez o que pode.
- Mas como isso aconteceu?
- Isso o quê?
- Esse rasgão?
- Ah, o rasgão.
- Isso. Conta.
- Você promete não contar para ninguém?
- Prometo, já falei.
- Jura por ele?
- Ele quem?
- Ele, ora!
- Tá bom, juro. Por Deus.
- Aproxima o ouvido que eu não quero que ele ouça.
- Pronto, pode falar.
- Então. Ele peidou.
- Quem?
- Deus, Deus peidou e rasgou as calças do céu.
- Acontece.

Fecha não fecha

Noite, quase madrugada e o café esvaziou seus habituados bêbados. No salão, mesas descadeiradas, balcão encardido, garçons mal-humorados. Poucos focos de sonolenta vigília. Aqui, um policial aquece a espinha; ali, um estudante devora seu sanduíche murcho; adiante, um casal sorve uma sopa desoladora. Os últimos clientes ancoraram suas nádegas no café triste.

Chove e gela lá fora. Poucos fregueses ainda arriscam, sem sucesso, da porta, um último gole, um último alento, palpite, conforto. A cidade desalma os desgarrados.

São onze e vinte agora, e um gato se espreguiça sob o toldo encharcado: é quase hora da caça para ele. O patrão desliga o rádio e precipita a faxina que se arrasta.

Se arrasta. Se arrasta. Se arrasta. Fecha não fecha, fecha não fecha. Não fecha ainda, quase na hora, quase, quase. Ela está chegando. Atrasada. Deve ser a chuva, o frio. Onde estará? Vai demorar? Será seu vulto pardo na esquina?

Toca a campaninha da porta. Os sinos despertam o olhar curioso do estudante, a malícia do policial, a esperança do velho casal. Despertam também o sorriso maternal do patrão.

Encasacada da cabeça aos pés, um longo cachecol a disfarçar-lhe o rosto desertificado, a dama escorrega como um espectro. E mastiga um boa-noite rouco. Em segundos, a velha desaparece pela escada em caracol que desce ao porão. Alguns coxixos reverberam no café. Todos se concertam e interrogam quem é. Mas o patrão emudece sorridente, como todos os dias, como há quarenta anos quando ela entrou pela primeira vez no café. Chovia e também fazia frio.

O café curioso murmura.

É quase meia-noite: um tilintar de cristais, um farfalhar de seda; um vapor silvestre escapa do banheiro, do porão. No salão, o estudante mastiga, o policial degusta, o casal saboreia, lenta, silenciosa, atentamente.

O café teso suspende o fôlego.

Meia-noite agora: um chapéu de feltro, uma serpente de pluma rosa e um longo colar belle-époque serpenteia escada acima.

O café extasiado aplaude.

O patrão se precipita e, com uma profunda reverência, escancara a porta do café. E Dame Loulou, numa nuvem de cânfora, escapole pela noite. Sublime. Absoluta. Eterna.

Monday, November 21, 2005

Porto Algre


Assim q vi a ponte, pensei que estava na hora de ir embora. Mas um querido amigo me mostrou tudo e valeu.

E não é que falam português por lá?

Tudo é pontudo em Porto Alegre. As pessoas são pontudas, as risadas, os jardins, os prédios e os narizes também.

Sabe Blog, me lembrei do Luxemburgo - o país. A gente ia lá, com a família, comer chocolate e brincar no parque de Mondorf. Também é um país pontudo o Luxemburgo.

E por incrível que pareça, também é batatudo o Luxemburgo. As mulheres, a voz das pessoas, os amores, até os sonhos são batatudos.

Me lembrei do Luxemburgo em Porto Alegre.

Experiência

- Um, dois, três, quando eu contar até três, a gente pula de cabeça, fecha os olhos e abre os braços. Só vale acordar quando eu disser, combinado?
- Combinado.
- Então, vamos começar a preparação. Em que você está pensando nesse momento?
- Em nada.
- Ótimo, mas não é possível. Fecha os olhos. O que está passando pela sua cabeça?
- Deixa eu ver. Bom, agora acho que estou com medo.
- Medo de quê?
- Sei lá. Dessa sua experiência estranha.
- Certo. Mas qual é esse medo exatamente? Você está achando que vai acontecer alguma coisa ruim?
- Sim. Alguma coisa perigosa.
- Por exemplo?
- Ué, sei lá, me machucar, desmaiar, ter dor de barriga, morrer.
- Mas se você nem sabe o que vamos fazer, por que você está com medo?
- É verdade. Mas mesmo assim.
- Mesmo sem saber o que iremos fazer, você está assustado.
- É, você tem razão. Para que ter medo?
- Para quê? Então, limpa esse medo agora.
- Certo, não estou mais com medo.
- Bom. E agora você está pensando em quê?
- Em nada, quer dizer, só estou pensando que foi fácil espantar o medo.
- Foi mesmo. Agora seria bom você espantar qualquer outra coisa que passar pela sua cabeça, inclusive essa.
- Está bem. Combinado. Como se eu estivesse dormindo.
- Isso.
- E agora?
- Agora eu quero que você tire da sua cabeça qualquer coisa.
- Mas é isso que eu fiz!
- Fez nada, porque está me perguntando o que iremos fazer agora. Isso é sinal que você está antecipando o que irá acontecer.
- É verdade. Mas como faço para continuar a brincadeira então, já que não sei o que é para não ter medo e não posso perguntar, porque senão fico antecipando o que vai acontecer depois?
- É fácil. Não faz nada.
- Nada. Está bem. Não estou fazendo nada.
- Ótimo.
- Estou sem fazer nada. Nadinha de nada.
- O quê você esta pensando?
- Nada.
- E de que você está com medo?
- De nada.
- Em que você está pensando?
- Em nada.
- Então, você está pronto?
- Estou.
- Fecha os olhos.
- Fechados.
- Abre os braços.
- Abertos.
- Vou contar até dez.
- Certo.
- E daí a gente pula. Certo?
- Certo.
- Um, dois, três, quatro, cinco, seis,
- Mas a gente pula no dez ou depois do dez?
- No dez.
- Certo.
- Vamos lá. Um, dois, três, quatro.
- Só uma pergunta.
- Fala.
- Pode ser até doze?
- Pode. Vamos lá?
- Para onde?
- A gente combinou. Não é para pensar. Nem ter medo. Nem fazer nada. Lembra?
- Lembro.
- Vou contar.
- Pode contar. Não estou pensando, nem estou com medo, nem fazendo nada.
- Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove.
- Vai a doze ou a dez?
- Doze, dez, como você quiser.
- Doze, então.
- Então, vamos. Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove, dez, onze, doze. Vamos lá.

- Oi. Cadê você? Você está aí? Alô? Você conseguiu mergulhar? Meu Deus, o que aconteceu com você? Fala comigo. Por favor. Você ainda está por aqui? Fala alguma coisa. Era de brincadeira. Não era pra valer. Por favor, volte aqui. Que brincadeira de mau gosto. Volta aqui já! O que eu fiz? Por favor, eu estou pedindo. Não era sério. Onde você está? Vou contar até dez. Daí você volta, tá bom? Estou falando sério. Vou contar, tá? Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove.
- Pode ser até doze?

Evolução das espécies

Era uma vez, onde o céu beija a terra e a terra lambe o céu, uma ilha ensolarada.

Aquele pedacinho de terra, no meio do oceano e a muitas milhas do continente, era o habitat preferido de pelicanos e leões-marinhos. Eles viviam pacificamente, dividindo tudo em perfeito equilíbrio. Ninguém metia o bedelho na etnia alheia. As aves não cobiçavam as pedras chatas do litoral onde os leões douravam o barrigão; e os leões, por sua vez, não invejavam os ninhos fofinhos de onde saíam a cada ano, incontáveis esquadrões de penugem voadara. Havia comida e bebida, sol e vento, luz e paz para todos. Era assim desde muito tempo.

Não havia líderes comunitários nem carismas de palanque. E tudo permanecia como sempre havia sido. Leões procriando silenciosamente, pelicanos copulando desavergonhadamente.

A população de leões-marinhos tinha lá seus velhos conservadores, jovens universitários, capitães de manada, solteironas vitalinas, astros pops e editorialistas mal-humorados, mas tão somente para debater o aquecimento da calota polar. No mais, era só espreguiçar as banhas ao sol e bocejar sem cerimônia.

Da mesma forma, os pelicanos organizavam-se em torno de seus técnicos de futebol, guias turísticos e chefes de cozinha, maestros autoritários e generais, mas só para discutir e debater os fluxos e refluxos das correntes oceânicas. No resto do tempo, era só cacarejar ruidosamente e deslizar entre as nuvens.

Até que um dia, aportou na praia uma foca desbussolada. A forasteira distraíra-se atrás de um cardume prateado e perdera-se de seu povo.

A coitada, exausta e esbaforida, fingiu um desmaio na areia, com violência e dando gritinhos de prima-dona para chamar a atenção. Aquela cena bizarra despertou a curiosidade dos habitantes da ilha. Pelicanos sobrevoaram o local do incidente, e leões- marinhos arrastaram suas pelancas para perto. Apressaram-se todos a seu redor. A foca, esperta, com um olho entreaberto acompanhava a movimentação.

Todos discutiam como iriam prestar socorro à coitada, tão cansada, tão sofrida, tão solitária. Os pelicanos discorriam sobre os grandes benefícios da medicina alternativa e das dietas líquidas; leões marinhos adiantavam que exercícios físicos são nocivos à acumulação de gordura e falavam maravilhas da lipoaspiração e das modernas técnicas de implantes. Cada um tinha uma solução, uma cura apropriada.

Enquanto isso, a foca fazia manha, gemia, batendo as nadadeiras no chão.

As discussões se avolumaram e causaram enormes constrangimentos. Ninguém estava de acordo. A foca exultava, manhosa, deliciando-se com tanta atenção.

Foi então que, contorcendo-se toda, a foca aprumou-se no meio da multidão terrestre e aérea. Todos calaram-se instantaneamente, acompanhando seus movimentos. Ela caminhou lentamente para um rochedo. Subiu e, lá do alto, levantando as mãos para os céus, tomou a palavra.

“Meu povo, minha gente, leões-marinhos e pelicanos, obrigada pela recepção. Estou aqui para iluminar-lhes o destino.”

Leões e pelicanos ouviam pacientemente, divertidos, mas, ao mesmo tempo, curiosamente seduzidos pela oratória.

“Fui escolhida para um solene desígnio. Calotas polares e correntes marinhas, dai- me força para esta missão!”

Nesse instante, a platéia entrou em delírio: os pelicanos cagaram na cabeça dos leões-marinhos, que, por sua vez, urravam com espasmos intestinais incontroláveis.

A foca, lá do alto, acompanhava sorrindo, feliz com o efeito de suas palavras.

Mas o tumulto tomava proporções catastróficas. O transe descambava para uma orgia sem precendentes na história do reino animal. Cenas de sexo improvável, bizarrices, aberrações, uma suruba inter-racial, supra-étnica e transambiental.

A foca, do seu trono de pedra, clamou várias vezes uma chamada à ordem. Ela gritava palavras ameaçadoras, interjeições inflamadas. Todas as técnicas que aprendera no tempo em que vendia sardinha na Groenlândia foram usadas, para tentar acalmar a turba. Sem sucesso.

Só restava uma alternativa: sair de fininho, na maciota, sem chamar a atenção. Foi o que ela fez com muita competência, nadando a grandes braçadas, para longe daquela ilha.

O que aconteceu com a foca não sabemos. Provavelmente encontrou sua turma ou morreu empalada em alguma ilha habitada por iguanas e babuínos de bunda branca, zebras e aranhas caranguejeiras, tamanduás patrióticos e jabutis.

Já a ilha de pelicanos e leões-marinhos nunca mais foi a mesma. De pacata e ordeira, transformou-se num laboratório genético.

Uma foca esperta é mais eficiente que toda a teoria da evolução.

Evaporação

E se um dia todas as terras queimassem? E se um dia todos os mares secassem? E se um dia todos os céus escurecessem?

Era longo o caminho até a vila e ele tinha tempo para pensar e observar os tufos de verdura no meio do pasto, o corrimão de arame farpado, as nuvens rasgando o céu.

No centro da estrada, uma água barrenta escorria por entre os gravetos e pedregulhos. A chuva tinha caído selvagem logo cedo: um solavanco no céu, uma rajada de vento, e os baldes d´água despencaram. A terra regurgitou os excessos, cuspiu lama morro abaixo e transbordou as valas, até espalhar-se pela superfície impermeável do caminho. Desceu desordenadamente para talhar um sulco raso na terra.

Quando o céu sacudiu suas últimas lágrimas, o sol atravessou as cortinas d´água que respeitosamente secaram. A água continuou seu curso até os pés do menino, a caminho da vila.

Ele pensou na água que fugia e naquela que se infiltrava na terra.

A primeira encontraria o riacho da ponte que, por sua vez, terminaria no rio negro, até correr com pressa para o mar que lambe todas as terras do Mundo.

A segunda se dividiria em infinitas gotas minúsculas, as quais, ao penetrar na terra, se agarrariam às raízes profundas que as sugariam para o alto, até ressurgirem dependuradas nas folhas do pasto, como pérolas frágeis de orvalho.

Ele pensou no céu que, histérico, desaguou naquela manhã. Nas nuvens que descabelavam o céu. No pasto verde que se estendia inabalável por entre os penachos de verdura.

Era assim desde sempre. Desde sempre, a água caía do céu, saciava o pasto, que suava ela de novo pelas folhas. Desde sempre, a água escorregava pela terra até confundir-se no mar.

Mas como havia tanta água no céu? E o mar por que não entornava, e o pasto por que não enjoava?

Tinha um mistério. O mistério da água do céu. Era bom saber que ele existia.

Porque, se um dia as terras estorricarem de calor, os mares secarem e o céu não mais brilhar; se um dia não tiver mais água para esborrotar do céu, vai ser longo demais o caminho para a vila.

Eternidade de perdão

Olho-te para roubar teu olhar
Toco-te para saquear teu arrepio
Pergunto-te para estuprar tua dúvida
Te amo para armazenar-te,
Te amo para roubar-te

E se um dia acabar,
E se um dia desaguar,
E se um dia, sei lá…
O butim me restará,
O butim que roubei de ti

Meu amor,
Perdoe-me por te amar.
Meu amor,
Perdôo-te por me amar.

Esperança

Para Neo

Sozinha, considerando, esperando, esperando, esperando, numa cela suja, uma aranha cuspia fios. De memória de aracnídeo, era imemorial a tecelagem da pequena aranha. Cuspia e engolia de volta, dia a dia, à caça de curiosas probabilidades aladas.

Sozinha, considerando, esperando, esperando, esperando.

Penélope era o nome que lhe fora dado pelo último gatuno que povoara de imprecações inocentes os ecos molhados da cadeia. E nos charmes prateados da obra de Penélope, perdidos perdiam-se. Ela, rápida, sofria a reverberação gulosa instantaneamente, corria, embrulhava e comia, composta de sobrevivência. Essa era a espera da pequena aranha.

Só um dia, só um dia, quase no fim, aconteceu diferente. A armadilha estava tesa entre as barras desde cedo. Era domingo, dia de silêncio e sol na rua adormecida. Penélope esperava há dias e, por isso, arriscara-se a mostrar-se para os tementes da justiça. Cadeia vazia não põe medo. Mas a fome era maior que o risco da vassoura do carcereiro.

Sem feira, sem animal, sem murmúrios, nada de pretendentes, e o dia escorregou desesperadamente. Quando o pretume trancou a cela, Penélope dedilhou os fios da teia que suplicaram um límpido vazio. Nenhum ruído, nada de comida. Era a hora de recolher, triste.

Então, quando a pequena desfiou a seda, lá no centro convergente da espera conformada, algo naufragara, sem alardes.

Naquele Domingo lento, Penélope comeu. Mais um Ulisses de araque.

Espelho meu

Quando sai de casa, numa bela manhã florida, dei de cara com uma mulher desdentada, com o cabelo arreganhado e a pele cravejada de espinha. Uma visão dos infernos, coitada. “As noites mal dormidas tem a propriedade de perpetrar os pesadelos para além das portas do sono”, pensei. Segui adiante pensativo

O que será que ela teve? Que ausência de vaidade absoluta. Mas e aquele brinco espalhafatoso na orelha?

Enquanto ruminava considerações psico-socio-caritativas a respeito da infeliz, parei numa esquina esperando passagem para atravessar a rua. Distraído, virei-me para os lados: um gordo com cara de fuinha e franja sebosa à minha direita, uma loira lavada com olhos despencados e nariz de bola do outro lado ou ainda um adolescente cinzento de olheiras esverdeadas.

O sinal abriu e continuei circulando em meio àquele insólito pátio dos milagres. Nunca tinha visto tamanho atentado ao bom gosto, ao pudor estético. Nunca tinha percibido tanta miséria concentrada. Meu coração escorregava de comiseração. Mas aos poucos aquele desfile de espectros disformes contaminou me de ansiedade e nojo. Acelerei o passo e tropecei numa perna esticada no meio da calçada. Apoiei me com as mãos e enquando tentava levantar-me, pedindo desculpas ao dono do membro purulento, ele encostou no meu ombro.

Uma trocado para um pobre infermo

A visão daquele rosto dilacerado de sofrimento me proporcionou tamanho espanto que fugi dali, engolindo os joelhos e ganindo como um cão.

Concentrado, não levantei mais a cabeça e corri muito tempo até perder o fôlego. Apoiei numa parede para recuperar-me. Quando a vida retornou no meu peito, de solslaio, ensaiei olhar para os lados. Aquela rua estava praticamente deserta. Um taxi despontou na esquina. Acenei e logo eu já estava no interior do carro indicando minha casa.

O veículo percorria as ruas que desfilavam lentamente através do vidro. Depois de poucos minutos, ele estacionou. Fixando a maçaneta da porta, estendi umas notas para o motorista e desci sem olhar para trás.

Escalei os degraus correndo, entrei em casa, precipitei-me no banheiro, chequei o espelho e saí novamente. Pimpão e cheio de auto estima.

Que bom que tem dias assim. Dias que o mundo parece horrendo demais para nós que somos formosos como a diáfana tez de uma manhã florida.

Era uma vez

Era uma vez, uma princesa da Dinamarca que se apaixonou à revelia de toda a família, dos compromissos políticos e também da ciência. Mas foi daqueles amores que não se pode conter. Cada vez que o galgo branco saía no jardim, o coração da menina saltava como um feijão mexicano. O cão também não escondia sua devoção. Latia e se requebrava só de farejar o perfume de lavanda almiscarada da pequena.

Inocente em flor, Kátia confidenciava suas juras até nos corredores do palácio. Logo a notícia chegou aos ouvidos reais. Seu pai, já velho, pouco duvidou das intenções da princesa. Afinal, ele também tivera outrora uma grande paixão eqüina e amargara a pilhéria da corte por isso. A rainha também caíra de amores por um papagaio bem como todos da dinastia anterior por animais diversos. Era, pode-se dizer, comum, embora perigoso.

Contava-se, por exemplo, que o avô da princesa fora banido do reino, ao assumir sua incontrolável paixão por uma cabra montanhesa. O mesmo com sua esposa e o tamanduá real do zoológico. Era uma maldição ancestral e, para prevenir o futuro sombrio de Kátia, o rei encarcerou a pequena na torre do castelo de inverno, guardada por mudos guerreiros. Seu destino estava selado, até que o alvo de suas taquicardias fosse comprovadamente eliminado.

Quanto ao pobre galgo, ele fora levado ao cadafalso e, para não levantar suspeitas, a execução teria lugar numa província deserta e longínqua. No entanto, na hora de pisar no patíbulo, foram tantas as lágrimas do cão, que elas inundaram o coração enregelado do executor malvado. Assim, redimindo-se de mais um pecado, o carrasco degolou um pau de cedro que ele cuidadosamente esculpira à imagem do galgo.

O crédulo rei reconheceu a petrificada criatura como prova da morte canina e, com grande pompa, liberou a princesa.

Não fosse essa uma história, assim findaria o destino de Kátia. Mas, nesses tempos perdidos, as lendas tinham outro fim.

O cão apaixonado cavalgou anos pelas planícies brancas, décadas. A pequena princesa amargou um casamento humano durante anos, décadas. O rei um dia morreu, e o degolador virou monge.

Nas condolências reais, o drama findou por obra do carrasco, que anunciou sua desobediência. Nesse instante também o pequeno galgo ressurgiu. Ele jogou-se esquelético aos pés de Kátia, que desmaiou nas suas rendas enlutadas.

Não fosse essa uma história, aqui terminaria o idílio de Kátia e o galgo. Mas, nessas eras sem testemunho, as lendas não tinham fim.

O galgo, reanimado pelos pajens, declarou-se à Kátia, que pediu bênção aos sisudos cardeais. Só que não deu certo, por causa dos dogmas. O galgo foi levado aos ferros e Kátia, à Patagônia.

Sendo essa uma história, cá terminam as palavras. Sendo essa de amor, foram-se outras e muitas vezes mais, sem fim.

Entre o Céu e a Terra

Quando ele ainda era pequeno, Cesinha gostava muito das árvores, das plantas, das flores. Ainda bebê, quando se sentia só, virava de lado e olhava, sorrindo e confortado, os grandes carvalhos verde- oliva dançando pela janela.

Mais tarde, quando aprendeu a andar, sentia um prazer enorme em caminhar pelo parque, acariciar os troncos, deitar-se na grama molhada, soprar nas pétalas das glicínias.

No seu décimo aniversário, Cesinha ganhou uma pá, um avental e botas de borracha. Era sua panóplia de felicidade. Quando voltava, infeliz da escola, corria para o quarto, travestia-se de jardineiro-cavaleiro e saía para o jardim, poderoso e invencível. Seu pacto de sangue era preservar sua coleção vegetal à qual havia dado nomes honrados. Os dois carvalhos altivos e serenos eram Arthur e Geneviève; a misteriosa roseira era Morgana; o chorão que derramava suas tranças pelo muro, Lancelot.

Um dia, Cesinha encontrou uma pequena muda jogada miseravelmente na lata de lixo do vizinho. Imediatamente ele armou-se com suas poderosas ferramentas e plantou o castigado cipreste na pracinha onde costumava brincar com seus amigos. Por uma abençoada sorte e com os cuidados de Cesinha, Merlin sobreviveu.

Todos os dias, Cesinha observava seu crescimento com uma viva satisfação. Sentia-se orgulhoso de tanto viço. O menino também defendia seu amigo contra as pragas, os tratores, o mijo das crianças.

Cesinha cresceu. Merlin cresceu. Mas os dois nunca se separaram. Nunca.

Hoje Cesinha está bem velhinho, Merlin também. Ainda se encontram com freqüência. Uma vez por semana, Cesinha apanha a bengala e rasteja para a praça, para conversar com Merlin.

- Merlin, bom-dia.
- Bom-dia, Cesinha.
- Como você está?
- Bem, obrigado. Andei com alguns problemas de irrigação, mas, por sorte, soube que a previsão do tempo anunciou fortes chuvas para o final da semana. E você?
- A não ser a vesícula, os reumatismos e a dificuldade de ler, está tudo bem.
- Cesinha, que idade você tem?
- Oitenta e sete. E você, setenta e cinco.
- Exatamente. A memória ainda funciona, não?
- Muito bem. A memória sim. Mas o resto, meu amigo, é uma lástima, um naufrágio.
- Imagina, você está ótimo.
- Estou nada. Olha só isso. A cada ano que passa, eu fico mais curvado. Tudo despenca. Tudo. Às vezes, ao acordar, mal consigo sair do lugar. Me sinto pesado. Parece que algo está me puxando para baixo, para baixo, para baixo.
- Engraçado isso.
- Eu não acho muita graça não.
- Desculpa, eu queria dizer que é engraçado, porque comigo é o contrário.
- Como assim o contrário?
- Você se lembra daquela vez que uma praga, uma maldita erva de passarinho se fixou na minha testa?
- Claro que me lembro. Deu um trabalhão, mas conseguimos extirpar a danada, não?
- Sim, claro. Mas você lembra que bastou você subir numa cadeira pra alcançar a safada?
- Lembro sim.
- Naquela época, éramos quase do mesmo tamanho.
- É verdade.
- E depois disso, eu te passei, passei o muro da praça, passei até o velho cedro.
- É. Você está muito alto agora.
- Pois é isso. Você sente que algo te puxa para baixo, e eu sinto o contrário.
- Que algo te estica para cima.
- Exatamente.
- É a idade, Merlin, a idade.
- É, a idade.
- A idade dos homens nos puxa para o centro da Terra, para o fundo, para a cova. Já a idade das árvores, a idade das árvores as puxa para o céu, Merlin, para o céu.

Enquanto isso

Enquanto isso, lá no País d´Oc, um bebê nascia, filho de pai tropeiro e mãe poeta. Era o segundo, e sua vocação foi definida no momento exato em que ele abriu os olhos molhados sob o rosto observador da mãe: o pequeno seria trovador.

Parte de sua educação foi dada aos solavancos, nas viagens do pai. A outra metade de sua iniciação foi provocada pela mãe que exercitava no menino a capacidade de retratar em lágrimas, sorrisos e silêncios os cenários sempre renovados do comércio do pai.

Aos quinze anos, o adolescente já estava maduro no seu ofício e, bandolim a tiracolo, partiu no lombo de uma mula com o destino temperado pela chuva dos caminhos, o opróbio dos ricos e o suspiro das princesas.

A despedida da família foi tímida. O pai, na soleira da porta, abençoou o filho, dizendo: “Vai, filho, aonde te leva o vento.”

A mãe, apoiada no seu ombro, verteu dois soluços, declamando: “Cultive o amor, filho, o amor pelo amor, filho”

Assim viajou o trovador, pelo País d´Oc e além. Muitos ventos açoitaram sua nuca, muitos amores transbordaram a garganta também. Ele seguiu, com o pai tropeiro no pulso, a mãe poeta na alma, por toda a vida e além.

Enquanto isso, aqui, os homens colocam os desígnios do homem na proveta. Sem vento a desfolhar o coração.

Engolindo pizza.

Eu queria dizer algo, mas não sei qual é o algo que quero dizer.

Falar quem sou, o que quero, o que procuro, o que sonho. Mas não sei nada disso. Ou quando tento, saem frases tais como fornadas de pizza. Sempre receitas prontas, disfarçadas com cobertura cheirosa de mussarela e tomate.

Ninguém me engana. Não acredito no que os outros dizem. Uma fornada de pizzas a mais, e lá vem aquela coisa gordurosa.

Tem um ponto de interrogação dando solavancos na minha cabeça. Queria exilar esse maldito corcunda para sempre. Mas, intrometido, ele se enxerta em cada naco de pizza que tento fazer experimentar. Ele violenta todas as certezas que engulo.

Pontos de exclamação são piores. Falsos, teatrais. Eles travestem as pizzas para dar-lhes ares de originais. Uma calabresa com ponto de exclamação é quase cômico. Será que ninguém percebe que esses mordomos plantando bananeira são cínicos?

Dois pontos são pretenciosos, arrogantes, empolados tolos. Não tentem me enganar com suas abotoaduras, eu vi que a camisa é rota. A pizza é requentada, molenga, passada, podre. Não adianta justificar, não quero engolir essa nojeira.

Sem falar das aspas, ah, as aspas! Palhaças desbocadas. Porta-vozes, dublês fingidas, que vergonha colocar em bocas alheias uma fatia de pizza mastigada! Quero dizer algo de mim, não mussarela digerida.

Pontos de sustentação são cobertura estreita e rala. Pizza de pobre, de cego. Enfeite fingido, um tapa-olho, uma indisfarçavel incapacidade de saciar.

Vírgula é suspiro, escape, tubo de respiração artificial. Só ornamentação, um bocado de azeitona e queijo ralado. Não diz nem desdiz. Inútil.



Fico por aqui, regurgitando para falar. Me exprimir sem vergonha e nu, cru mas denso. Não sai nada. Eu, as pessoas, o mundo, pontuado de enorme mentira. Só mentira, que não acaba mais de tanta pizza, sem ponto final.

Endless

E no final, era sempre a surpresa, um fato que havíamos esquecido de acompanhar ou simplesmente a narrativa bifurcava para outra realidade, diferente daquela que estávamos construindo.

As histórias são como um bolo enfeitado com cerejas. O bolo pode ser de creme, de marzipã, de doce de leite, mas, na hora do arremate, é sempre a mesma coisa: o costume ou a fantasia. Cerejas, flores ou arabescos confeitados.

Por isso, eu sempre lia primeiro o final e depois o recheio. Ou comia antes a cereja e largava o bolo.

É um truque de estilo. Afinal de contas, para que recheio se o gostoso, o diferente, o gesto genial fica para as últimas linhas? Para que o esforço?

É uma impostura de autor. Não é honesto nem franco contar uma história quando se sabe o final. É um golpe baixo dar água na boa e na hora do fastio, oferecer um delicioso final.

Eu sempre lia o final porque não era justo o que faziam conosco.

Minha avó era mais radical e sempre terminava suas histórias da mesma forma: “Entrou por uma perna de pinto, saiu pela de um pato, seu rei mandou dizer que contasse quatro”.

Eu detestava esse final porque era invariável, coringa e incompreensível. Ela contava aquela velhas histórias, completamente inventadas, sem pé nem cabeça, e eu recitava sozinho o incontornável clímax.

Mas, afinal, por que queremos um final para as histórias? Para que serve uma cereja encastelada num bolo?

Em nome do pai

Zé da Conceição era um cabra muito perigoso. Dizem que com vinte e três anos ele já havia roubado, surrado e quase matado vários pacíficos cidadãos. Numa vacilada etílica, prederam o desinfeliz, que foi sumariamente condenado a passar o restante dos seus dias no presídio de segurança máxima localizado numa ilha no meio do oceano. E lá se foi o Zé pagar sua pena.

Mal chegou, Zé virou Caneca Amassada, alcunha dada pelo carcereiro-chefe do campo, Sargento Mané Filó, que tratou de achatar-lhe o nariz logo de cara. Era assim que Mané batizava seus condenados, tirando-lhes sua antiga identidade e geralmente um naco do nariz, dedo, orelha ou, em casos de excesso de homônimos, partes mais sensíveis: “Bandido não tem direito a nome, só a apelido”.

Caneca Amassada ambientou-se facilmente, travando amizade com seus colegas de cela: Fingerless, o marujo inglês; Bule Sem Alça, o professor tarado; e Desbagado, o poderoso cafetão da capital.

A vida não era nada fácil no presídio. Mabuia assada e ensopado de mocó não enchem barriga. Mas Caneca não era de se deixar abater e, quando carregava as pedras de arrimo do dique do porto, ele olhava para o mar, que se estendia para todos os lados, e cantarolava: “Vento e maré / não sou Mané / Aqui só quico / Aqui não fico.”

E foi, então, que Caneca Amassada preparou sua fuga. O plano era simples e fora elaborado com Fingerless, que cuidaria dos detalhes da navegação; Bule, da comida; Desbagado, do disfarce. A jangada levou um ano inteiro para ser construída e tinha sido escondida sob as pedras de uma escarpa acidentada da ilha. A comida, cuidadosamente surrupiada da parca ração diária, e o disfarce, bem, não havia nenhum, já que Desbagado não era homem de se disfarçar.

Num dia de calor sufocante, enquanto o regimento de soldados baseado na ilha roncava à sombra das gameleiras e que Mané Filó desaguava na casinha, Fingerless, Bule e Desbagado correram para a jangada, mas, quando lá chegaram, só conseguiram avistar uma vela tremelicando ao longe, no mar: Caneca fugira com a noiva do padre da ilha, Maria Camita, deixando seus comparsas praguejando e jurando vingança.

Passaram-se muitos e muitos anos. Fingerless morreu de febre, Bule, de diarréia e Desbagado continua lá na ilha, plantando macaxeira e contando história aos forasteiros que visitam o lugar.

Caneca Amassada, quanto a ele, se deu bem na vida. Casou-se com a noiva do padre e virou lanterneiro na capital.

Quando o Sargento Filó se aposentou, ele voltou ao continente, virou capelão da igreja e desfiou os anos que lhe restaram com muita cachaça, badalo de sino e até batismo:

– Bom dia.
– Bom dia, qual é o assunto? Casamento? Missa? Quermesse? Bastismo?
– Batismo.
– Nome do pai?
– José.
– Mãe?
– Maria.
– Nome do rebento?
– Caneca Amassada Filho

Eleflight

Era um elefante alado que adorava passear pelas trepadeiras do jardim.

Ora, mas ele tinha o defeito desnaturado de assumir a cor das corolas que chupava. E nos dias de primavera, quando as glicínias, lágrimas-de-cristo, jasmins borboletas e congéias floresciam, o elefante ficava alaranjado, vermelho, branco, rosa, ou arco-íris quando a fome era grande.

Mas esse era apenas um pequeno defeito. Com o tempo, todo mundo acabou se acostumando com a digestão cromática do elefante. E não é que ficava uma beleza o jardim com o Proboscídeo colorindo os ares?

No entanto, o bicho também tinha outros mais graves sinais de estranheza. Por exemplo, sua voz de soprano ligeiro que ele desembrulhava em vocalises agudíssimo. Os gafanhotos, coitados, davam pulos de susto! Sem falar do jabuti. Com tanta tensão sonora, ele ficara anoréxico.

Além dessas particularidades, o elefante era sonânbulo e atormentava as mariposas com suas incursões descontroladas nas arandelas do terraço. Porque, como se não bastasse, ele tinha espírito de porco e sempre rodava em volta da luz, no sentido contrário das bruxas. Elas perdiam o norte, coitadas.

Tinha mais coisa. Ele jogava críquete. Já imaginaram o formigacídio que isso causava? O elefante também era um livre-pensador, laico, antipapista. Não precisa falar da raiva dos louva-a-deus! Para finalizar, o animal se apaixonava diariamente. Até por moscas e aranhas ele caía de amores. Que coisa!

Era, como dizia seu Manuel, o jardineiro: um elefante atrapalha. Um elefante voador atrapalha muita gente.

Ele e o resto

O mundo que ele via era todo remendado de arame quadriculado. A rua, as árvores da calçada, os passantes, os carros e outros animais. Mas, quando ele dava as costas para esse quebra-cabeças, a visão era coesa e uniforme. As plantas do jardim abraçavam-se em comunhão com a casa, o céu, a terra e tudo que ele via.

Cedo ele concluiu que, para cá da cerca, era ele e, para lá, era o resto e os outros. Sua consciência era assim delimitada pelas fronteiras da casa. Esta propriedade dava-lhe o direito de ir e vir livremente. E todos os dias ele aprendia os limites de seu ser: subir nas árvores não era possível, nem entrar na casa, quando chovia. Também não dava para voar no céu, nem morder os gatos que passeavam pelo telhado. Mas, em compensação, ele podia enterrar ossos, dormir no sol e também esgueirar-se pelas pernas que cruzavam seu caminho.

Alguns fenômenos, no entanto, eram estranhos à sua compreensão. Por exemplo, o carteiro que ora pertencia ao resto, ora a ele. Por isso, quando o cão foi invadido pela primeira vez por aquele corpo amarelo estranho, ele debateu-se todo, mordeu e conseguiu expulsá-lo. Ou, ainda, outra esquisitice da natureza ocorria quando alguém da casa saía para a rua e, de repente, era expelida de sua consciência para quadricular-se toda. Esses fluxos eram um mistério muito atraente. Por isso, ao primeiro sinal de interferência, campainha ou buzina, o animalzinho armava-se para lutar, latia, mordia o vento, pulava na cerca.

Foi assim quase a vida inteira: preservando a sua consciência e deixando o mundo, o resto e os outros, no seu devido lugar.

Só deu tudo errado, quando o cão escapou pelo portão. E foi, a partir de então, que ele soube que era possível transcender-se.

Era assustador e, por isso, ele sempre voltava.

Mas era bom demais e, um dia, foi-se o cãozinho ser um com o mundo, o resto e os outros para nunca mais voltar.

Efemerídeo

Essa é a história de Mike, o louva-deus. Ele morava numa cidade grandona, cheia de tijolo sujo e céu congestionado. Mas assim mesmo ele tinha lá seus nacos de felicidade.

Mike nasceu órfão, num tronco de carvalho debruçado no muro de uma casa, entre o rio largo e a avenida ruidosa. Seus primeiros passos ele deu ali mesmo, no jardim, passeando suas antenas ainda trôpegas pelos vidros. A casa pertencia a um aposentado reverendo, que pela manhã inspecionava seu jardim florido, cantando de improviso. Foi assim que Mike teve sua iniciação musical.

Quando, mais tarde, o louva-deus espreguiçou suas asas, sem querer, ele foi alçado por uma brisa fria e zarpou do jardim. Atônito, Mike viu o jardim, a avenida, as ruas, desfilarem ao bom prazer do vento. Quando finalmente ele conseguiu estabilizar suas palmas nervosas, Mike percebeu que ele podia voar. Esse foi a segunda grande lição da vida do louva-deus. Feliz da descoberta, ele foi-se, livre dos luxos e refluxos do sopro que vinha do rio.

Quando cansou, Mike tratou de pousar. O bairro ainda despertava, quando o inseto aterrissou no parapeito de uma porta, entre uma floreira de gerânio e uma luminária de bronze que fixava seu olho de ciclope na calçada. Mike beliscou vagamente um broto que despontava por entre as fissuras da parede e matou a sede no orvalho. Finalmente, ele ajeitou-se, observando a agitação que começava alguns metros abaixo.

Os homens gordos se aninharam entre a porta e a rua. Eram três negros de peito inchado e um contrabaixo também obeso. Curioso, Mike ficou ali.
Algum tempo depois, começou o concerto. À capela, os cantores de rua entoaram a ladainha e ritmaram seus sorrisos arreganhados, batendo com as mãos. O pedestres, curiosos, amontoavam-se ao redor do trio. E Mike, ali, imóvel, hipnotizado pelos tenores do Senhor.

E quando a vida parecia deliciosamente ganha, Mike teve o terceiro grande ensinamento de sua vida. Terceiro e último. Foi quando ele avistou Anabelle, uma formosa louva-deus, piscando seus longos cílios de prata. Mike soltou a voz instantaneamente, aguda, límpida, romântica, magnética.

O resto do dia, Mike e o trio de blues encantou os curiosos e a linda Anabelle, louvando a Natureza de efêmera constância.

E quando a noite manchou o Ocidente, Mike finalmente entregou-se ao amor da bela, até perder a cabeça na paixão canibal de Anabelle.

Efêmera existência

Simon Wood era um esquilo de rabo espanado; Elisabeth Wide, uma andorinha de cauda bicornuda, e Barbra Wind, uma abelha zebrada de fogo. Eles moravam todos no mesmo condomínio vertical, récem-reformado por uma rica primavera.

Simon era um artista muito envolvido com influências estéticas de vanguarda e possuía um talento especial para criar instalações conceituais de cunho ambientalista. Sua última exposição tinha causado muitos questionamentos nos círculos cultivados, principalmente sobre a função social da arte pela arte, desvinculada do pragmatismo da sobrevivência e da colheita de castanhas.

Elisabeth, conhecida nos salões da sociedade por Beth W, era uma herdeira afortunada de um grande magnata transnacional. Mimada desde muito cedo por uma existência sem causas nem acasos, Beth era, no entanto, uma ensaísta arguta. Em seu último livro, ela havia demonstrado que a aceleração das comunicações internacionais tangenciava um perigoso flerte com a calcificação dos sentimentos atávicos e, portanto, ameaçava a função tradicional dos ventos nas migrações.

Por fim, Barbra, tinha uma posição bastante privilegiada nas altas rodas, porque era colunista social de um tablóide sensacionalista. Filha de uma família numerosa, a abelha se destacava por suas observações ferinas dos costumes e, por isso, era temida e adulada por todos. Em seu best seller de etiqueta, Barbra descrevia com riqueza de detalhes o manual do bom anfitrião, com um capítulo especial dedicado à decoração de uma colméia.

Em suas atividades diversas, Simon, Beth e Barbra encontravam-se todas as manhãs, no parque que circundava seu condomínio arbóreo.

Enquanto Simon se exercitava com sofisticados exercícios de uma arte marcial oriental, Beth executava reverências exaltadas à beleza da manhã. Já Barbra fotografava e anotava tudo.

O que nem mesmo a curiosa colunista desconfiava era que, assim como ela, seus dois vizinhos tinham cacoetes excêntricos para pessoas tão bem-nascidas. Tratava-se de uma espécie de cleptomania avarenta.

Simon, por exemplo, colecionava castanhas; Beth, sementes de flores, e Barbra, poros de samambaias. Eles jamais admitiam, sequer no divã de seus terapeutas austríacos, tamanho desvio de caráter. Sempre que praticavam seus furtos, eles escondiam-nos no jardim que circundava o edifício. Tão disfarçado, tão envergonhado, que eles nunca lembravam depois onde estavam seus preciosos butins.

E assim ia a vida dos do esquilo, da andorinha e da abelha. Vivendo e roubando, roubando e escondendo, escondendo e roubando mais ainda, para esconder novamente e nunca encontrar nada do que tinham roubado.

Passados muitos anos, é da natureza dos esquilos artistas, das andorinhas escritoras e das abelhas jornalistas morrer. Como morrem todos os seres vivos, mesmo aqueles que, em suas efêmeras existências, viveram de fúteis e férteis afazeres.

Hoje não resta grande coisa da extrordinária escultura de Simon, tampouco do apocalíptico ensaio de Beth e muito menos das fofocas de Barbra.

O condomínio vertical, no entanto, sobrevive, elegante e magnânimo, em meio a um florido bosque de castanheiras e exuberantes samambaias.

Eca

Ninguém acreditaria na hípotese de um hipopótamo passar despercebido no hipódromo. Mas foi uma pândega o pandemônio do paquiderme no derby.

Quando chegou acompanhado de sua gazela, gaguejaram de ver tão garbosa gostosa. Toda a atenção se dirigia para a fofa, e até a foca saiu de foco. Ninguém reparou na corpulência desajeitada do Jaba jocoso e muito menos no disfarce sem arte do traste. Nem as garças e os gaviões do gargarejo gozaram do gordo sem graça.

O anfíbio foi à fileira dos filantropos - a fina flor - com festivas firulas. Sentou-se sem cerimônia, sacou a cigarreira, sem sequer socar seu simiesco vizinho. Todos assistiram ao turfe, e até a tonta tartaruga torcia tensa. O hipopótamo posava de potentado e não pertubava a turba.

Mas o coitado, deu uma mancada na arquibancada, quando de suas ancas despencaram quilos de cocô. No início, nem a hiena notou, mas ele foi finalmente flagrado por um famigerado flamingo que fomentou uma fuga fenomenal.

Triste sina do hipopótamo. Com o rabo ele arremessa meleca quando defeca.

E quando eu crescer?

Para Carlinhos

- O que você quer ser quando crescer, Theo?

A mãe saiu para trabalhar. O pai também saiu, para nunca mais voltar. Theo levantou e saiu para a rua. Caminhou um pouco, devagar, olhando a pipa vermelha que rodopiava no céu. Numa lage ele sentou e ficou ali olhando o mar, lá longe.

- Fala aí?
- E aí?

Carlinhos chegou, sentou ao lado de Theo, olhando o mar, lá longe. Theo e Marcos cresceram. Em cima da lage, olhando o tempo passar.

- O que você vai ser, depois daqui, Fabinho?

Era uma familia grande e Fabinho nem sabia ao certo quantos irmãos tinha. Saiu de casa no meio da tarde, correu pela rua e foi bisbilhotar a vizinhança.

- Quem comeu a Ritinha?
- O Zé.

Leonel chegou e ficaram ali, falando da vizinhança. Fabinho e Leonel cresceram. Nas ruas da favela e, de vez em quando, na cama da Ritinha.

- Aonde você quer viver, um dia, Mané?

Mané Piolho tinha um irmão mais velho, o Paulão. E Paulão vivia de treta com a polícia. Mané saiu de casa e foi levar uma encomenda pro Paulão.

- Vamos pra praia
- Mais tarde. Agora não dá.

Vicente chegou e ficou ali, fumando um. Mané Piolho e Vicente cresceram. Fazendo avião para Paulão até ele morrer e continuar depois para Xupim, Capitão e Cacau.

O que você vai ser quando crescer, Theo? Carlinhos? Fabinho? Leonel? Mané Piolho? Vicente?

Theo, urso polar, bem grandão com muitas focas para se saciar.

Carlinhos, o cometa Halley que só passa na Terra de vez em quando que é para não ficar com nojo.


Fabinho, um cavaleiro medieval com mil mulheres de cinto de castidade a esperá-lo no seu harém da Dinamarca.

Leonel, uma flauta de ouro na boca de uma virtuose da Orquestra Sinfônica da Romênia.

Mané Piolho, maquinista de metrô no Japão, de luvas brancas e sashimi na barriga.

Vicente, um saco de pancada, um adolescente morto, assassinado na porta do barraco, no morro à beira-mar.

Thursday, November 17, 2005

Muda e na espreita


Desculpe se você estava aqui abandonado. Dias sem afago. Mas não parei um instante de pensar em você.

Por exemplo, fui pra Belém e vi aquele florestona toda. Fica nos observando o tempo todo. Em cada verde, em cada gotinha, em cada silêncio, em cada bafo.

Oprime.

Sabe, Blog, eu ainda não me acostumei muito com você não. Você fica aí silencioso mas é tão generoso! E eu sou tagarela e tão vaidoso! Você cala, eu falo. Você armazena, eu extravaso. Eu queria ser você e você queria ser eu.

Mas o pior é que só existimos por causa da floresta de gente. Muda mas na espreita. Como a floresta lá de Belém.

Liberta, espero.

Dormir no ar

Acordei. Calor. Chuva. Pouco a fazer. Nada a fazer. Dia ruim. Melhor ficar na cama. Não sair. Não brincar. Dormir.

Uma avião cor-de-rosa fura o chantili. É um bolo enorme em forma de arranha-céu. Muita gente conhecida comemora um aniversário. Mas que coisa, não me lembro dos nomes! Uma pessoa gargalha muito alto, rodopiando numa cadeira giratória. Outra, dança cadenceando as ancas ao ritmo dos solavancos do riso.

Ainda chove. Ninguém na casa. Que bafo! De bruços, agora.

Uma enorme mandala de pedra vai furando o céu. Ao passar, espalha no ar brigadeiros com formas variadas. Galinha, coelho, Papai Noel, carro de bombeiro. Aqui embaixo, o povo está se acotovelando de boca aberta, para comer os doces que caem. Mas não consigo alcançar. Aquele, aquele lá! Uma boca enorme de pelicano se abre por cima e engole o brigadeiro. Talvez se eu rastejasse até aquela clareira. Tem pouca gente lá. Não me mexo direito. Muitos pés pisando nas minhas mãos. Quero acordar. Sair do sufoco.

Saio ou não saio da cama? Mais uns minutos. Talvez outra viagem. Limpar a imagem. Dormir mais.

Está ventando muito, na beira do canal. A água esverdeada reflete os telhados intrincados. É uma imagem opaca e difusa que se movimenta para os lados. Que sensação boa. Uma gôndola acena de longe e avança rapidamente em sua direção. Quando ela chegar, é só dar um pulinho por cima da mureta. O que fazer com a cesta de vime? Acho que deve ser levada. Tem salame e ovo duro. Chocolate, será que o chocolate veio? Não dá tempo de ver: o barco já chegou. Até que ele é bem grande. Tem uma enorme carranca na frente. Ela parece de carne, osso e de sorriso acolhedor. Delicia estar aqui. O vento é úmido, e o sol lambe o convés molhado. As almofadas são profundas; os tapetes, coloridos, macios. E, de todos os lados, desfilam casas carcomidas, palácios estreitos, igrejas trancadas. A brisa abraça a praça. Muito adeus jogado ao mar. O oceano se abre à frente, para acolher o piquenique náutico. A cesta se abriu. Colares, brincos, anéis de jade espalham-se no ar cobrindo as velas de brilho e cor. Quem comeu o meu salame? Não faz mal, vou dançar com a carranca e flutuar por cima do espelho abismal. Mas como é fácil voar! Um empurrão para cima, mãos atrás da nuca, é só fechar os olhos. A cidade flutuante partiu à deriva, e a gôndola mágica evaporou-se atrás da curva do céu. Como é bom voar.

Sonhei. Uma nau de chantili a deslizar no ar. A chuva parou.
O salame. Que fome! Melhor levantar.

Dona Luzia

Para Clélia

Detrás de um pé de romã morava Dona Luzia.

A casa era arrumada, pequena, nem pobre, nem grande. Pelo terraço com cortinas de samambaias, você entrava. Na sala, uma mesa com três cadeiras, vaso de vidro colorido tronando no centro, duas cadeiras de balanço de espaldar alto, um pequeno sofá de cócoras no chão e um grande relógio dourado numa marquesa barroca. Ao fundo, a cozinha asseada, emanava o louro do feijão que fervia pacientemente. Tinha dois quartos na casa, ladeando a sala.

Todos os dias, Dona Luzia esticava a colcha de piquê, limpava o pó da máquina de costura e encerava o vermelhão do piso. Depois, a velha sentava na varanda e contava a idade passar, escondida nas samambaias, no pé de romã, no tempo, na recordações.

Mais tarde, a avó iria beliscar, lavar-se, limpar o fogão, alisar os porta-retratos, chorar um pouco, arrastar-se novamente para o ninho verde e apagar o dia com o terço nas mãos. Mais um dia que passava. Mais um.

Às vezes, tinha visita. Tinha a pressa dos filhos, a pressa dos netos, a pressa do bolo de fubá que esfarelava, quente ainda, entre um bom-dia e um deus-te-abençoe. Mas era só às vezes. De resto, a vida de Dona Luzia não acabava mais de adormecer.

Era assim a vida. Arrumada. Nem triste, nem feliz, nem nada. Um ocaso longo e invariável.

Mas uma vez por ano, todos os anos, era uma alegria. Uma âncora de viver. Era quando o pé de romã desabrochava primeiro, desflorava depois, e uma única fruta persistia, engordava, estufava, esticava-se. Uma única romã insistia. Dona Luzia, de detrás, torcia.

E quando, enfim, a romã explodia sua boca de sangue, dona Luzia gargalhava a sua.

Do céu que nos diverte

O céu estava cinzento, molhado e pesado. Homens e mulheres, acanhados, fixavam o chão, cumprimentando-se com os ombros, fuzilando olhares distraídos e palavras à-toa. Cápsulas de solidão indo e vindo.

A cidade crescia, zumbia, paria monstros, naufrágios, andróides gigantes espalhando seu óleo de máquina num dócil papel crepom. E os homens, as mulheres, os seres criadores recolhiam-se, mecanicamente humiliados. Utilitários descartáveis pra cá e pra lá.

Mas um ovo caiu lá de cima. Um ovo de galinha caipira. Enquanto ia despencando, o mundo desfilava acelerado. Ele via muitas nuvens e movimentos. Girando, girando, caindo, caindo. Depois veio uma galinha, apressada, de bico no prumo da queda, seguida por um dragão faminto, no balanço de uma língua enorme.

O ovo, a galinha e o dragão riscavam o vento, descendo perigosamente em direção ao asfalto povoado.

Nenhum humano viu nada quando a galinha recuperou sua futura prole, quando o dragão engoliu tudo de uma lapada só, bateu asas e sumiu.

Mas uma cadeira caiu lá de cima. Uma cadeira de madeira e palhinha. Ela rodopiava de pernas para cima mobiliando o ar. Depois veio um criado-mudo vociferando atrás da companheira perdida e um gato gordo, peludo, miando e fungando.

Os três vizinhos apostavam letal corrida na rua hipocondríaca.
Ninguém viu coisa nenhuma e cadeira, criado-mudo e gatão enfurnaram-se numa janela anfitriã.

Mas uma peruca deslizou céu abaixo, encrespando seus fios castanhos no pó suspenso. Depois veio um leque andaluz, com suas rendas esbanjadas e um espelho de mão, caçando os reflexos perdidos.

Ficou por isso mesmo e os vaidosos do toucador passaram em branco. Homens e mulheres da rua nada perceberam.

Só quem viu, só quem se maravilhou, foi o betume da rua, mas ele era mudo e mouco.